Falece Benedito Ruy Barbosa, icônico criador de “Pantanal” e “O Rei do Gado
Impacto do Autor nas Novelas Brasileiras
Nesta terça-feira (7/7), Benedito Ruy Barbosa faleceu, aos 95 anos, deixando um legado indiscutível na história da televisão brasileira. Reconhecido por obras como “Pantanal”, “Renascer”, “O Rei do Gado” e “Terra Nostra”, ele moldou uma dramaturgia que retratava o Brasil rural, enfatizando sagas familiares e a força das tradições populares, sempre com personagens profundamente enraizados na terra.
Falecimento Confirmado em São Paulo
A confirmação de sua morte foi feita pela assessoria do Hospital do Coração (HCor), onde permanecia internado. Segundo comunicado, o autor faleceu devido a complicações relacionadas à insuficiência renal crônica, condição com a qual convivia há três anos e que resultou em internações frequentes por infecções urinárias.
No início deste ano, ele passou 19 dias hospitalizado para tratar uma infecção urinária relacionada ao seu quadro renal.
Desmentido Rumores sobre Saúde
Nos últimos anos, problemas de saúde diminuíram suas aparições públicas. A família de Benedito negou especulações sobre a possibilidade de ele ter Alzheimer ou qualquer outra doença neurodegenerativa.
De acordo com os parentes, o autor se manteve lúcido até o fim. Por orientação médica, ele deixou sua residência no interior de São Paulo e passou a viver mais próximo dos familiares na capital. Essa mudança significou o fim de uma rotina que estava intimamente ligada ao campo, um ambiente que permeava sua obra.
Em mais de cinquenta anos de carreira, Benedito trouxe à televisão um panorama que até então pouco era explorado no horário nobre. Suas novelas substituíam cenários urbanos por paisagens rurais, trocando encenações artificiais por locações naturais e apresentando conflitos históricos e épicos relacionados ao pertencimento à terra.
Início da Trajetória Artística
Benedito nasceu em Gália, interior paulista, no dia 17 de abril de 1931. Antes de se tornar um ícone das novelas rurais, atuou como jornalista e publicitário e também escreveu para teatro e cinema.
Sua trajetória no mundo da ficção começou no teatro com a peça “Fogo Frio”, apresentada pelo Teatro de Arena de São Paulo. Sua estreia como autor de novelas ocorreu em 1966 na TV Tupi com “Somos Todos Irmãos”. Durante os anos 1960, também contribuiu com roteiros para a Record durante um período importante na formação da TV brasileira.
Estreia na Globo: Criação da Novela das Seis
A entrada de Benedito na TV Globo foi marcada pela novela “Meu Pedacinho de Chão”, que foi exibida entre 1971 e 1972. Esse trabalho não só marcou seu início na emissora como também inaugurou a faixa das 18h, que se tornaria uma das mais icônicas da programação televisiva.
A produção foi realizada em parceria entre a Globo e a TV Cultura, sendo exibida simultaneamente nas duas emissoras. Juntamente com Teixeira Filho, Benedito trouxe à trama elementos que se tornariam características distintivas em seu estilo: o foco em uma pequena comunidade rural abordando temas como desigualdade social, coronelismo e relações familiares no interior.
Foi uma representação inicial do Brasil profundo que ele transformaria em material dramático significativo, demonstrando que o campo poderia ser muito mais do que um simples cenário.
Explorando Histórias do Interior
Benedito retornou à faixa das 18h com narrativas que reforçavam sua conexão com o interior do Brasil por caminhos distintos. Em 1976, adaptou “O Feijão e o Sonho”, romance de Orígenes Lessa sobre o conflito entre idealismo e sobrevivência material. Ele converteu essa luta em um melodrama popular centrado em um poeta incapaz de sustentar sua família e uma mulher forçada a lidar com as necessidades práticas do lar.
No ano seguinte, também participou da novela “À Sombra dos Laranjais”, ambientada em uma cidade pequena repleta de disputas familiares e política local. Embora Sylvan Paezzo tenha iniciado a obra, Benedito assumiu a escrita durante sua exibição. Conflitos políticos locais e personagens enraizados na terra formaram um repertório que ele expandiria nas décadas seguintes.
A última novela daquela década, “Cabocla”, solidificou ainda mais a presença do interior nas produções das 18h. Adaptada do romance de Ribeiro Couto, ambientava-se na Vila da Mata e girava em torno do romance entre Zuca e Luís Jerônimo — inicialmente interpretados por Glória Pires e Fábio Júnior — retomando temas recorrentes como rivalidades familiares e os desafios sociais no Brasil interiorano.
Aproximação com o Público Infantil
Benedito também fez parte da primeira versão da Globo de “Sítio do Picapau Amarelo”, uma das produções infantis mais marcantes da televisão brasileira. Lançada em 1977, a série seguia Pedrinho chegando ao sítio familiar e adaptava o universo criado por Monteiro Lobato. A atração permaneceu no ar por quase dez anos mesclando fantasia com folclore rural.
A série inseria crianças, adultos e criaturas fantásticas num ambiente rural reconhecível onde a imaginação brotava através da convivência com elementos naturais como casa, quintal e rio.
Cinema: Reflexão sobre o Interior
A conexão de Benedito Ruy Barbosa com as temáticas rurais não se limitou apenas à televisão; entre os anos 1970 e 1980 ele também escreveu roteiros para filmes que exploravam ambientes interioranos e cultura caipira.
Seu roteiro para “O Dia em que o Santo Pecou”, lançado em 1975, abrangia drama popular misturado à fé local diante dos desafios enfrentados pela comunidade após um suposto milagre. Além disso, ele produziu “Mágua de Boiadeiro”, drama estrelado por Sérgio Reis sobre as mudanças trazidas pelo progresso nas pequenas cidades interiores paulistas.
A preocupação dele era evidente: muitas vezes modernização significava não apenas avanço mas também ruptura cultural significativa para aqueles ligados à terra.
Mudança para Temáticas Urbanas
Após estabelecer-se firmemente como autor ligado ao interior na faixa das 18h da Globo, Benedito decidiu explorar novas narrativas ao ingressar na Band visando criar novelas urbanas. “Pé de Vento”, veiculada em 1980, transferiu um protagonista rural para São Paulo explorando ambições profissionais e conflitos familiares dentro desse novo contexto.
Nesse período houve também uma forte transição pelo cinema popular brasileiro; nos fins dos anos 1970 até início dos anos 1980 ele participou ativamente em filmes voltados ao grande público enquanto temporariamente afastava-se da imagem tradicional associada às suas novelas rurais.
“Amada Amante” (1978) contava a história familiar desintegrando-se diante dos novos desejos urbanos; enquanto “Sábado Alucinante” capturava a essência jovem das discotecas daquela época — ambos representavam realidades bem distintas das suas narrativas anteriores.
Pioneiro nos Éxitos Rurais
Parece que essa experiência poderia indicar uma mudança definitiva na carreira do autor; porém rapidamente retornou às suas raízes ao escrever para Band sua primeira novela épica histórica: “Os Imigrantes”, lançada em 1981. A obra marcou não apenas sua volta às tramas históricas mas também se tornou emblemática dentro da história da emissora.
A novela narrava a chegada ao Brasil no final do século XIX de três imigrantes — Antonio Di Salvio (italiano), Antonio Hernández (espanhol) e Antonio Pereira (português) — todos atraídos pela promessa de vida melhor nas plantações cafeeiras brasileiras sob condições severas impostas por fazendeiros autoritários.
Narrativas Intergeracionais
A estrutura narrativa desta obra demonstrou ser geracional ao avançar nos tempos mostrando os efeitos das escolhas feitas pelos imigrantes sobre suas gerações futuras. Após iniciar-se em 1892, saltaria para eventos significativos como movimentos operários até culminar nos sucessos pessoais dos descendentes durante momentos críticos como a Revolução Constitucionalista em São Paulo nos anos 1930.
Lançamento de Novos Talentos
Benedito reuniu um elenco impressionante repleto de grandes nomes da televisão brasileira como Yoná Magalhães, Rubens De Falco entre outros astros reconhecidos tanto no cinema quanto na TV; além disso lançou atores novatos cujas carreiras despontaram posteriormente através dessa produção marcante como Herson Capri.
A recepção positiva conferiu à novela prêmio Troféu Imprensa como Melhor Novela consolidando ainda mais seu sucesso fora da Globo.
Bandeira contra Domínio Global
“Os Imigrantes” tornou-se referência importante dentro da história da Band ao mostrar uma produção robusta desafiando diretamente a hegemonia globalizada imposta pela Globo.
No entanto essa consolidação propiciaria futuras colaborações entre Benedito Ruy Barbosa com outros clássicos produzidos posteriormente pelas emissoras onde imigrantes continuariam sendo tema recorrente assim como histórias ligadas ao Brasil rural.
Retorno à Globo
A partir desse momento Benedito foi procurado pela Globo confirmando seu retorno triunfante através da novela “Paraíso” exibida entre 1982-1983 onde recupera elementos centrais ligados ao ambiente rural.
No mesmo ano relançaria personagens importantes criando sequências diretas trazendo novos enredos aliados aos personagens já conhecidos (exemplo: “Voltei pra Você”)..
Dentre outros trabalhos notáveis destaca-se “Sinhá Moça” (1986) retratando questões sociais durante escravidão sem esquecer os melodramas típicos dessa época.
Toda essa base sólida pavimentaria caminho para novas histórias retratadas nas décadas seguintes desde temas sobre imigração até questões mais atuais relacionadas ao desenvolvimento urbano brasileiro.
Neste sentido cabe destacar seu último grande projeto intitulado “Velho Chico” exibido pela Globo desde 2016 onde retoma discussões relevantes acerca natureza/poder familiar/política sempre refletindo experiências humanas universais atravessando gerações .
“Velho Chico” encerrou ciclo artístico dando espaço ascendente Bruno Luperi neto autor revelação cinematográfica atual contribuindo assim perpetuação legado familiar refratário (remakes Pantanal/Renascer)....
