Jafar Panahi, laureado em Cannes, recebe sentença de 5 anos de prisão no Irã
Cineasta premiado enfrenta nova condenação
Jafar Panahi, renomado cineasta iraniano de 66 anos, foi sentenciado a cinco anos e um mês de prisão por um tribunal revolucionário em Teerã. Além da pena de reclusão, a decisão judicial inclui o confisco de seus bens e a imposição de uma proibição que impede o diretor de viajar e usar redes sociais durante um período de dois anos. O diretor, conhecido pelo filme “Foi Apenas um Acidente”, que conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2025, recebeu a sentença à revelia, mesmo estando disponível para as autoridades após retornar ao Irã em março deste ano, depois de um período fora do país devido ao reconhecimento internacional. A informação foi divulgada na terça-feira (27/10) pelo advogado Mostafa Nili à agência Emtedad e confirmada pela organização de direitos humanos HRANA.
Como o advogado tomou conhecimento da sentença?
O advogado Nili ficou ciente da nova condenação ao perceber o bloqueio das contas bancárias de Panahi na semana anterior. Em resposta a essa ação, ele procurou o departamento responsável pela execução das sentenças da Promotoria de Cultura e Mídia de Teerã, acompanhado pelo próprio cineasta. Durante essa visita, Nili descobriu que seu cliente havia sido julgado sem sua presença.
O processo ocorreu na 26ª Vara do Tribunal Revolucionário. O advogado mencionou que os registros judiciais indicavam erroneamente que Panahi estaria residindo fora do país, apesar do retorno dele ao Irã em 30 de março deste ano, após a temporada de premiações no cinema americano.
Além disso, Nili destacou que o cineasta participou de uma audiência judicial em maio e voltou a se apresentar às autoridades em setembro para tratar de outros casos. No entanto, ele não foi notificado sobre a audiência que resultou nesta nova condenação. Atualmente, Panahi enfrenta três processos judiciais distintos.
Decisões da Justiça iraniana
A sentença imposta ao cineasta inclui cinco anos e um mês atrás das grades, confisco dos seus bens móveis e imóveis, além da proibição de sair do país por dois anos e restrições nas redes sociais durante o mesmo período.
As acusações que originaram este novo processo não foram especificadas nos relatos fornecidos pelo advogado. Essa condenação é distinta daquela recebida por Panahi em dezembro de 2025, quando foi sentenciado a um ano de prisão sob alegações de realizar propaganda contra o regime iraniano.
A aplicação das duas penas dependerá das ações tomadas pelas autoridades judiciais. Embora Panahi não tenha sido preso imediatamente após a divulgação da nova decisão, o bloqueio das suas contas bancárias sugere que já existem repercussões significativas na sua vida.
Mais de 20 anos sob perseguição
Nascido em 1960, Jafar Panahi iniciou sua carreira cinematográfica como assistente do renomado diretor Abbas Kiarostami no filme “Através das Oliveiras” (1994). Ele fez sua estreia na direção com “O Balão Branco” (1995), que conquistou a Caméra d’Or no Festival de Cannes. Seu reconhecimento internacional se consolidou com “O Círculo” (2000), que recebeu o Leão de Ouro em Veneza.
A obra do cineasta frequentemente explora as tensões entre liberdade individual e as restrições sociais no Irã. Sua relação com as autoridades começou a se deteriorar quando seus filmes começaram a tratar temas relacionados à repressão política e às limitações impostas à sociedade. Em 2010, ele foi condenado a seis anos encarcerado e proibido de filmar, escrever roteiros ou conceder entrevistas por um prazo de 20 anos sob acusações relacionadas à propaganda contra o governo.
Diante dessa situação adversa, Panahi recorreu à produção clandestina e incorporou suas próprias limitações à narrativa dos filmes. Um exemplo é “Isto Não É um Filme” (2011), realizado durante seu confinamento e apresentado no Festival de Cannes disfarçado dentro de um bolo. Em “Táxi Teerã” (2015), atuou como motorista para captar diálogos com passageiros nas ruas da capital iraniana; esse filme lhe rendeu o Urso de Ouro no Festival de Berlim, mas ele não pôde viajar para receber o prêmio.
A pressão judicial continuou nos anos seguintes: Panahi foi detido novamente em 2022 e permaneceu cerca de sete meses preso até ser libertado em 2023 após iniciar uma greve de fome. No mesmo ano, sua proibição para viagens foi suspensa, permitindo-lhe retomar contato pessoalmente com festivais internacionais.
Do cárcere à Palma de Ouro e nova detenção
A vivência no sistema prisional influenciou diretamente seu último filme “Foi Apenas um Acidente” (2025). A trama segue antigos prisioneiros políticos que acreditam ter encontrado um dos torturadores do passado e enfrentam um dilema moral sobre como lidar com ele. A narrativa aborda temas como vingança, violência estatal e as cicatrizes deixadas pelos interrogatórios.
Este longa-metragem conquistou a Palma de Ouro em Cannes e representou a França no Oscar 2026 nas categorias Melhor Filme Internacional e Melhor Roteiro Original. A seleção francesa possibilitou que uma produção realizada clandestinamente no Irã competisse por prestígios internacionais apesar das dificuldades enfrentadas pelo seu diretor.
A recente condenação parece ter como alvo interromper novamente sua atividade cinematográfica poucos meses após alcançar seu maior triunfo profissional com o prêmio principal do Festival de Cannes.
Reconhecimento da resistência no Brasil
No Brasil, Jafar Panahi também goza grande prestígio entre os cinéfilos. Em outubro de 2025, esteve no país para exibir “Foi Apenas um Acidente” durante a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, onde recebeu o Prêmio Humanidade. Essa visita marcou seu retorno presencial ao festival após vários anos impossibilitado devido às restrições impostas pelo governo iraniano. Em 2018, já havia sido agraciado com o Prêmio Leon Cakoff mas não pôde comparecer à cerimônia devido às mesmas limitações governamentais.
A história do cineasta é tema do documentário “Sul de Teerã” (2026), dirigido pelo brasileiro Kleber Mendonça Filho; ambos disputaram este ano o Oscar na categoria Melhor Filme Internacional. Filmado em 16 mm durante o Festival de Nova York em 2025, o documentário acompanha Panahi pelas ruas da cidade enquanto ele relembra sua infância em Teerã e sua paixão pelo cinema.
A produção estreou em Nova York antes da chegada ao Brasil durante a abertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo no dia 14 outubro com a presença do diretor Kleber Mendonça Filho.
