Globo investe em conteúdos para celular visando lucrar em setor bilionário
Globo intensifica investimento em conteúdo mobile
A Globo anunciou um aumento significativo na criação de conteúdos voltados para dispositivos móveis a partir de 2027. A emissora planeja explorar novas fontes de receita por meio de novelas curtas, realities e produções jornalísticas adaptadas. Com mais de 500 milhões de visualizações acumuladas em seus microdramas, a empresa está determinada a estabelecer o formato vertical como uma área fixa de negócios. A estratégia foi apresentada por Manzar Feres, diretora-geral de Negócios, durante o evento que revelou os projetos da emissora para o próximo ano ao setor publicitário.
Quais são as mudanças na produção?
A ampliação abrangerá toda a dramaturgia da emissora. Conforme foi reportado em 15 de outubro, cada nova novela da Globo terá pelo menos uma narrativa derivada em formato vertical a partir de 2027. A decisão foi comunicada no Upfront Globo 2027, realizado no dia 14 de outubro, em resposta ao sucesso do projeto “Loquinha”, que adaptou a história de amor entre Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovsky) da novela “Três Graças” para uma produção exclusiva para smartphones.
Essa abordagem já foi testada em produções como “Por Você” e “Coração Acelerado”, além de obras originais como “Tudo por Uma Segunda Chance”, estrelada por Jade Picon, e “Cinderela e o Segredo do Pobre Milionário”, com Gustavo Mioto. O objetivo é criar histórias que possam ser distribuídas em várias plataformas, aumentando assim a exploração comercial dos personagens envolvidos.
Como a Globo planeja gerar receita?
A estratégia não se limita apenas ao aumento na audiência. A Globo busca integrar publicidade às suas produções, desenvolver enredos vinculados a marcas e usar os microdramas como um atrativo para conquistar novos assinantes. Manzar Feres afirmou que “nossa estratégia é multidistribuição e multiformato”, detalhando os planos comerciais da empresa.
O modelo já combina conteúdos gratuitos nas redes sociais e no Globoplay com produções exclusivas para assinantes. Os sete primeiros episódios estão disponíveis sem custo para usuários cadastrados, enquanto o restante requer assinatura. Além disso, há planos para criar tramas personalizadas para anunciantes, integrando produtos e campanhas nas histórias.
A busca por receitas acompanha a expansão global do setor. De acordo com dados da consultoria Omdia, as novelas verticais geraram US$ 11 bilhões mundialmente em 2025, com 83% desse valor concentrado na China. No Brasil, a indústria ainda está consolidando sua presença comercial. Profissionais de agências publicitárias indicam que as marcas permanecem cautelosas quanto a esse formato recente no país, apesar dos bons números de audiência.
Jornalismo e realities também estão na mira
A emissora também planeja aplicar a estética dos vídeos curtos no seu jornalismo. Manzar Feres confirmou que a Globo já está expandindo esse tipo de conteúdo nas suas plataformas digitais. Em aplicativos e sites como g1, ge e gshow, milhares de vídeos verticais são produzidos mensalmente para atender à demanda por notícias e entretenimento via dispositivos móveis.
Os realities fazem parte dessa estratégia abrangente. Em maio, Alex Medeiros, responsável pela curadoria de ficção do Globoplay, anunciou a criação de um programa desenvolvido especificamente para smartphones. Sob coordenação de Patricia Koslinski, executiva da área não-ficcional, o projeto visa engajar o público jovem.
A distribuição dessas produções agora conta com uma plataforma própria chamada GloboPop, lançada em abril deste ano. Esse serviço permite à Globo compilar vídeos curtos dos diversos produtos desenvolvidos internamente e gerenciar diretamente dados sobre audiência e publicidade sem depender exclusivamente do TikTok ou Instagram.
Patrocínios chegam perto de R$ 5 milhões
Conforme informações obtidas sobre os planos comerciais da emissora, um dos principais projetos será “Brasil Celebra”, uma websérie apresentada por Milton Cunha que vai explorar festas populares e tradições culturais brasileiras nas cinco regiões do país.
A série contará com cinco episódios de até 15 minutos cada, lançados semanalmente no Globoplay e YouTube. Os pacotes comerciais variam entre R$ 1,38 milhão e R$ 4,92 milhões conforme as condições oferecidas aos patrocinadores.
A escolha pelo YouTube como uma das plataformas revela mais uma faceta da estratégia: ampliar a distribuição dos conteúdos utilizando serviços que competem diretamente pela atenção do público com a televisão tradicional na Grande São Paulo, uma região chave no mercado publicitário nacional.
Ex-BBB traz Parintins sob nova perspectiva
Um outro projeto voltado aos patrocinadores é “Parintins em Primeira Pessoa”, estrelado por Marciele Albuquerque, ex-participante do BBB 26. Essa produção irá mostrar os bastidores do Festival Folclórico de Parintins através da visão da influenciadora usando técnicas gravadas em POV (ponto de vista), permitindo ao espectador vivenciar os momentos do festival como se estivesse lá.
As cotas para patrocínio variam entre R$ 176 mil e R$ 500 mil. O formato proporcionará uma visão íntima dos preparativos e eventos do festival sob o olhar único de Marciele Albuquerque.
A técnica já possui um precedente na própria Globo; durante a novela “Velho Chico”, exibida em 2016, foram utilizadas câmeras subjetivas para contar parte da história após falecimento do ator Domingos Montagner durante as gravações.
Bia do Brás terá reality show focado na moda
Beatriz Reis, conhecida como Bia do Brás, foi selecionada para liderar um projeto voltado ao universo digital chamado “Moda à Brasileira”. Esta websérie mescla elementos documentais com reality shows ao acompanhar jovens estilistas que criam roupas utilizando materiais recicláveis.
A série contará com três episódios curtos – cada um com cinco minutos – lançados semanalmente no Instagram. Os participantes utilizarão retalhos e peças não utilizadas provenientes do Brás em São Paulo para criar novas vestimentas através da técnica conhecida como upcycling. Além disso, haverá um filme fashion estrelado por Beatriz usando as criações feitas durante o programa.
O plano comercial relacionado ao projeto prevê uma cota patrocinadora no valor aproximado de R$ 280 mil excluindo os custos de produção. Este projeto se beneficia da popularidade crescente da ex-BBB nas redes sociais onde ela acumula mais de 5 milhões de seguidores e sua conexão anterior com o comércio local antes mesmo da participação no reality show da Globo.
Uso de inteligência artificial será incorporado
No horizonte das novidades previstas para 2027 está também o uso de inteligência artificial na criação dos microdramas. Mauricio Felix Vasconcelos, diretor executivo responsável pela tecnologia na Globo, anunciou planos para lançar conteúdos baseados nesse conceito já no primeiro trimestre do próximo ano.
“No mundo dos microdramas é viável produzir conteúdos nativos utilizando IA”, declarou Vasconcelos durante o evento Data Center World Brasil ocorrido em 6 de outubro. Ele complementou dizendo que “vocês verão produções com IA logo no início do ano que vem”.
A tecnologia já está sendo aplicada pela Globo em diversas áreas como criação publicitária e atendimento aos assinantes do Globoplay além da curadoria visual das imagens relacionadas ao BBB. A inclusão da inteligência artificial nas histórias verticais ampliará ainda mais as possibilidades criativas nos conteúdos voltados para dispositivos móveis.
